
A desperate housewife
Acho que vou mudar minhas “atividades” no orkut. Onde antes de lia: “mestranda em ciência política” escreverei “esposa e dona-de-casa”. Pode dar risada, leitor, mas não se engane, isso é assunto sério. Ultimamente eu tenho sido bem mais “esposa e do lar” do que qualquer outra coisa. Mais que tenho sido estudante, infinitamente mais do que tenho sido “escritora bissexta” ou jornalista. É um conjunto de fatores: estou de férias da PUC, meu pai está aqui e além tem o fato de que homens são folgados, até os melhores deles.
Meu marido ajuda em muita coisa: lava louça, cozinha, faz supermercado, põe roupa pra lavar. É mais do que a maioria dos homens faz , pelo menos os que eu conheço. Mas tem coisas que acabam sobrando pra mim, pelo simples motivo de que eu não as fizer ninguém faz, inclusive o papel de megera, que é ficar chamando ele pra fazer as coisas junto comigo. Por algum motivo que eu desconheço, os homens não sabem que a limpeza der toda a casa precisa ser feita no mesmo dia porque senão carrega-se a sujeira de um lado pro outro.
Isso me faz pensar no quanto as mulheres se deram bem com a entrada no mercado de trabalho. A maioria acha que a mulher se ferrou, porque com isso veio a dupla, quiçá tripla jornada de trabalho. Mas eu acho que quem diz isso nunca passou uma linda tarde de sábado esfregando todos os azulejos do banheiro ou descongelando uma geladeira. Trabalho doméstico é o pior trabalho que existe porque ele simplesmente não termina nunca. Se você trabalha fora, sorte sua, porque 1)pode pagar alguém pra fazer para você 2) não vai reparar se estiver mal-feito 3) não vai ter muita coisa pra fazer porque passa o dia fora mesmo.
Hoje eu passei a tarde inteira limpando a cozinha. Limpei armários, fogão, pia, paredes, geladeira. Estava tudo muito limpo e cheiroso. Eis então que chega meu pai trazendo pão e meus dedos do pé se encolhem: eu mal acabei de limpar e vai começar tudo de novo! É de enlouquecer. E o pior é que a vida de dona de casa é assim mesmo. As coisas começam a se bagunçar e a se sujar no minuto seguinte ao término da tarefa. Manter uma casa em ordem (e eu digo em ordem, não impecável) dá muito mais trabalho do que ler 100 livros de filósofos franceses cabeçudos.
Serviço doméstico só aparece quando não foi feito. Por isso pra ter uma casa minimamente arrumada e limpa é preciso gastar umas boas horas do dia. Não é por acaso que a minha mãe nos seus tempos de dona-de-casa pesava apenas 48 quilos. Além de manter tudo impecável, ela ainda tinha de correr atrás de três crianças infernais. Bom, pelo menos a pessoa fica magra, alguma vantagem havia de ter.
CANTINHO TERRORISTA:Pra ser rainha do lar é preciso trabalhar feito uma abelha operária.
:: Postado por
Fhoutz
às
20h33
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Bonjour, tristesse
Desde que me entendo por gente essa melancolia tem sido a minha companhia mais constante. O que pode parecer muito paradoxal para uma pessoa que gosta tanto de viver e que aparentemente é muito alegre e animada. Não sei se posso dizer que a minha alegria é triste. Acho que não. Há toda uma história que fez com que a tristeza se tornasse uma companheira: as dificuldades financeiras, os problemas de saúde, as inúmeras mudanças de casa e de colégio, o sentimento de inadequação, a carência crônica, o fardo do suposto gênio, a violência simbólica.
Ao enumerar as passagens ruins de minha vida, sinto que passo uma impressão de que tudo foi um desastre e eu sei que não. Houve dias ensolarados, brincadeiras nos jardins, música, sorrisos e amor. Mas por que apenas os dias negros conseguem inscrever-se em minha memória com tanta força? Por que a cada crise vem esta sensação de que eu nunca fui feliz?
Não sei. Na verdade ultimamente eu me sinto muito mais feliz do que fui em qualquer outra época e eu penso que isso é visível na (baixa) qualidade do que eu escrevo. Se eu me habituei a ter na tristeza uma companhia, esta também se tornou meu alimento. E eu acho que passei tanto tempo pensando na minha própria miséria que passei anos sem a menor percepção de que o mundo à minha volta estava caindo. E não era esse mundão de meu Deus; era um mundo muito pequeno, o meu microcosmo, essas órbitas e satélites de sangue eterno.
Na verdade os fantasmas ao meu redor aos poucos foram sendo tomados pelo desespero.; enquanto o meu céu se abria tudo foi ficando muito claro, de forma que eu percebi que não precisa ser infeliz o tempo inteiro. E foi então que eu vi também que havia mais gente infeliz e eu não poderia fazer nada. Eu não sei se posso. Já foi tão complicado aprender a lidar com a minha própria melancolia e mesmo assim ainda há dias que, sem nenhum motivo, tudo o que queria era desaparecer, nunca ter existido.
Mas agora eu olho para ele que tem os olhos mais tristes do mundo. Ele que está morrendo um pouco por dentro todos os dias – e acreditem, isso pouco tem a ver com o corpo biológico. As pessoas as vezes passam anos morrendo aos poucos, de modo que sobra muito pouco para morrer de fato. Um corpo magro e uns olhos muito tristes talvez. E eu queria tanto poder fazer alguma coisa, poder doar um pouco das minhas parcas forças. Nessas horas eu chego a sentir falta do inferno.
Eu queria poder dizer a ele para não se entregar e que tudo vai ficar bem. Mas se tem um coisa que um deprimido sabe reconhecer é um otimista fajuto. Porque ele sabe que eu sei o que é carregar dentro essa destruição avassaladora. Então seguro suas mãos e permaneço calada, rezando talvez para que o vento carregue um dia essa tristeza para longe daqui, para longe de todos nós.
CANTINHO TERRORISTA: Como diria Kurt Cobain, I miss the confort of being sad.
:: Postado por
Fhoutz
às
18h51
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