Acorda, milico!
Na semana passada eu assisti a uma cópia pirata do filme Tropa de Elite. O filme é bom, mas é fascista que dói. Vou contar brevemente que é pra não estragar a história. A premissa é que a polícia militar do Rio de Janeiro é toda corrupta, salvo pelos policiais do Bope, a tal tropa de elite do título. A história é narrada pelo capitão do Bope que está procurando por um substituto. A mensagem é clara: o Bope é escroto, na mais completa acepção do termo, porque não há alternativas para combater a “guerra” que é a vida nos morros cariocas.
Segundo as palavras do narrador, se não fosse o Bope os bandidos já teriam tomado conta do Rio de Janeiro. Ele também afirma que nem o exército de Israel é tão rígido na preparação de seus soldados (veja bem a comparação e depois me convença se isso não é uma defesa do fascismo). E tome historinha pra legitimar a tortura, a tolerância zero e os todo tipo de dispositivo de exceção que você puder imaginar.
Mas, se só o Bope dá jeito, então porque não chamamos logo eles pra dar um jeito no Brasil? Bingo! É mais ou menos por aí que passa o raciocínio.
Não, eu não estou exagerando. Hoje saiu uma carta na Folha de S. Paulo porque aquele apresentador global casado com a Angélica ficou putinho por ter sido assaltado e perdido o relógio que ganhou de presente da esposa. No auge de sua fúria porque ele poderia ter morrido por causa de um relógio e pela possibilidade de deixar seus filhos órfãos, o apresentador clama pela Tropa de Elite, para que ela venha dar um jeito em São Paulo. Olha o Estado de exceção aí gente!
Há uns dois meses eu estava lendo este mesmo jornal e havia uma matéria sobre a passeata de um grupo pedindo a saída do presidente. Quem mora em SP sabe que a maioria das manifestações sociais saem da frente do Masp. Essa aí saiu da frente da Fiesp, o que já diz muita coisa sobre quem estava lá. Segundo o jornal, integravam a passeata não apenas descontentes com o governo Lula, mas também pessoas que defendem a criação de um partido conservador brasileiro e até do movimento que pretende separar o Estado de São Paulo do resto do país. E eis que no meio dessa fauna ouviam-se gritos de “Acorda, milico! Acorda, milico!”.
Não vou entrar no mérito do terror de ter uma arma apontada pro meio da sua cara ou sobre a corrupção endêmica do Estado. Para falar disso eu teria de falar sobre o quanto é indecente uma pessoa carregar no pulso um relógio do valor de um apartamento e o quanto isto está relacionado ao fato de alguém apontar uma arma na sua cara ou na cara de outra pessoa que nem usa um relógio tão caro. Nem sobre a falácia que é este sistema político que convencionamos chamar de democracia (já que o demos só este mesmo na palavra). O que me faz escrever este texto é uma perturbação que também deveria ser sua. Preste bem atenção, caro leitor: o fascismo nunca dorme. Então, cuidado da próxima vez que você vir alguém defender a tolerância zero. Isso nunca é bom.
CANTINHO TERRORISTA: Antes Renan e que as tropas de elite da vida.
:: Postado por
Fhoutz
às
16h27
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