
Uma serenidade insuportável
Há mais ou menos um mês e meio tenho vivido mudanças muito intensas, embora pouco perceptíveis para quem observa de fora. São transformações profundas, no sentindo real da palavra. Eu mal consigo entrar e contato com elas. Estas escondidas, submersas, mas dão outra configuração à superfície.
Tem uma banda paraense que eu gosto muito que tem uma música que diz “morre-se todo o dia, mas nasce-se no mesmo lugar”. Eu acho que passei boa parte da vida ensaiando para morrer e acho que se consigo captar algo desta mudança é a vontade de vida, as forças criativas e transformadoras, a potência.
É como se eu tivesse saindo da caverna pela primeira vez. Logo eu, que sempre estive certa de ter nascido fora da caverna. Não. Pela primeira vez eu piso no mundo sem voltar correndo para a prisão que tinha se tornado meu lar. E não é que este mundo seja novo, mágico ou repleto de cores que eu não conhecia. Ele é seco e sem ecos, de uma simplicidade aterradora. A vida apenas, sem mistificação, como diria aquele poeta que eu adoro.
Não é que eu saiba todas as respostas e que daqui por diante a vida vá ser maravilhosa. É mais sutil. É uma forma nova de olhar pras coisas e pra mim mesma, de me colocar no mundo, de auto-reconhecimento. Enquanto eu vejo amigos e amigas preocupados com a proximidade dos 30 anos, sinto que mal posso esperar para fazer 30 anos, porque só agora eu descobri uma força que nem eu sabia que tinha. E isso é bom, porque eu continuo acreditando que viver é sempre doloroso, o meio com que nos arrastamos pelo meio do caos é que faz a diferença.
Não é a velha euforia de sempre. É uma serenidade quase insuportável, porque como diria Pessoa, tem horas que eu me sinto lúcida como estivesse para morrer. Eu sempre pensei muito na morte, no sentido (ou na falta de sentido) de ser, da existência e da morte em si. A parte da mais legal do filme Blade Runner é quando o replicante confronta seu criador e pergunta e ele qual o propósito disso tudo, por que ele vive tão pouco e no final fica sem resposta.
Pensar na morte agora me faz pensar na vida. Mas viver cansa demais! De vez em quando eu ainda sinto falta do conforto estar triste, porque isso me situava. Na depressão eu era capaz de dizer exatamente quem era. Neste mundo fora da caverna eu já não sei direito. Sou capaz de ficar feliz sem que isso se traduza em danos para mim e para os outros, sou capaz de ficar triste sem querer morrer, sem passar duas semanas feito um zumbi; sou capaz de produzir sem estar sangrando pregada numa cruz.
Dizem que o transtorno que eu tenho não tem cura. Mas desde que eu parei de tomar remédios minha vida está melhor, embora eu tenha guardado algumas pílulas por medo do monstro voltar. Isso me faz pensar que, apesar do profundo respeito que tenho pela ciência, ela é apenas mais uma dentre as diversas formas de interpretação do mundo. Se é assim, eu quero pensar que estou livre, que a minha montanha-russa chegou ao fim e que finalmente posso descer. (Eu posso descer).
CANTINHO TERRORISTA: Este texto foi postado ao som de Bohemian Rhapsody.
:: Postado por
Fhoutz
às
13h37
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