
Vai trabalhar, vagabundo!
Ouço vários questionamentos sobre algumas datas: Dia Internacional da Mulher, Dia Nacional da Consciência Negra e todas as datas que incluem minorias que não são numéricas, mas são de direitos. Não há, contudo, questionamentos sobre a data de hoje. As datas em que ouvimos questionamentos sobre sua razão de existir envolvem, mais do que a celebração de étnica ou de gênero, uma afirmação de posição. Existimos e não vamos deixar de lutar por direitos que nos foram negados por séculos.
Agora me diga, caro leitor, o que há de ser celebrado no dia do trabalho? Conquistas trabalhistas? Melhores condições de trabalho e salários? Ai, fala com a minha mão. O trabalho em nossa sociedade não é uma conquista, é uma imposição. Se for pra marcar uma posição, só se for posição de otário. No feudalismo você era obrigado a trabalhar. No capitalismo você trabalha porque é obrigado, porque não te restou nada pra obter sua sobrevivência. Tem que vender a força de trabalho ou o corpinho. Às vezes, os dois.
O que me deixa passada é que talvez este seja o maior consenso de nossa “cultura”. O consenso em torno do trabalho é bem mais forte do que as opiniões sobre religião e temas como aborto, maioridade penal, pena de morte, descriminalização de drogas e afins. Não se questiona a cultura do trabalho, afinal ele enobrece o homem. Desde cedo somos confrontados com a pergunta do que vamos ser quando crescer. Ser neste caso é fazer. Somos definidos pela atividade que desempenhamos, pelo tipo de engrenagem que nos tornamos no sistema produtivo. Até o ideário de esquerda está profundamente ligado à noção do trabalho enobrecedor. Afinal, que fará a revolução que tornará este mundo uma gracinha será justamente o trabalhador, o proletariado.
O trabalho é sinônimo de ser adulto. A função que você desempenha e o salário que recebe por ela é um legitimador social: você é alguém que “deu certo”, bem sucedido, realizado na profissão. Não importa se isso significa trabalhar 12 horas por dia, mal ter tempo para aproveitar o dinheiro que está ganhando e ter um infarto aos 45 anos. O trabalho está diretamente ligado ao consumo, mas o que eu acho que muita gente não percebe é a inversão de fatores. Deveria haver um limite: trabalhar para ter casa, comida, quem sabe um carro (eu preferiria bicicleta, mas o mundo, como se sabe, é uma bosta e obriga as pessoas a andar de veículos motorizados). Pra que mais?
Porque se você fica até mais tarde no serviço você é aplicado e vai receber uma promoção. E aí vai poder comprar um carro melhor, uma casa na praia. É um ciclo que não tem fim porque o consumo não tem fim. A lógica que deveria ter “trabalhar para ter algumas coisas” se transforma em “ter muitas coisas caras porque eu mereço, já que me mato de trabalhar”.
Note que estou falando de trabalho e não de ter dinheiro. Isso é secundário. Ter dinheiro sem “se esforçar” - seja você um empresário rico, um playboy, um bolsista ou uma mãe de família que recebe subsídios do governo – é algo extremamente malvisto. Como se você fosse um vagabundo, um pária, um perigo para a sociedade. Não importa se você exerce qualquer outra atividade que te ocupe oito horas diárias ou mais, como fazem as donas de casa, as pessoas que fazem trabalho voluntário, pessoas envolvidas em política não-partidária, artistas ou estudantes. Se você está fora do sistema é porque você não existe.
A ética protestante-capitalista que vivemos é uma cultura baseada no sacrifício e na recompensa. Se você é um bom trabalhado merece o reino dos céus. Se você se dedicar, vai conseguir sucesso profissional e as recompensas materiais. A verdade, querido leitor, é que isso é historinha que inventaram para nos manter dóceis, sonhando com um pote de ouro no fim do arco-íris que ignora toda a conjuntura econômica e joga a responsabilidade apenas sobre os nossos ombros. E nem importa que este arco nem seja tão colorido assim, que ele esteja mais para o cinza-concreto. As cores, a recompensa, a realização do ser pelo trabalho não passam de ilusão, são um mundo colocado diante de nossos olhos para encobrir a verdade. Que verdade? Nunca vamos saber, pois estamos ocupados demais fazendo as engrenagens do mundo girar. Por isso, na próxima vez que você assistir a um comercial de alguma cerveja, com um tipinho popular dizendo que “teve que ralar muito para conquistar tudo o que tem, mas que trabalha com alegria e dignidade”, tenha certeza que esta empresa está lhe dizendo “Feliz dia do trabalho, otário. Agora aproveita o feriado e faz o favor de tomar nossa cerveja”.
CANTINHO TERRORISTA: Se trabalho fosse bom não pagariam para fazer.
:: Postado por
Fhoutz
às
10h50
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