Good vibrations
Tudo vai da melhor maneira possível no melhor dos mundos possíveis. Eu sempre achei esta frase um pouco idiota, pois meus parcos conhecimentos de História e Ciência Política a cada dia me fazem acreditar mais que o mundo não tem jeito e a única solução é destruir e começar tudo de novo. Mas isso é o meu coração anarquista falando. Eu sei que não vivemos no melhor dos mundos possíveis e que a bem da verdade, a despeito dos avanços tecnológicos e do fato de não haver mais escassez na produção de alimentos eu creio que não há muito o que comemorar, porque esses avanços chegam a mim, mulher de classe média que faz mestrado numa universidade de primeira linha e aí que está do outro lado da tela. A realidade é muito mais cruel, mas este não é um texto sobre a realidade. Pelo menos não sobre A Realidade, com letra maiúscula, mas sim uma realidade particular que eu creio ser a única que eu posso falar com propriedade, a minha.
A verdade é que tudo vai da melhor maneira possível no melhor dos mundos possíveis. E vejam, eu sou muito garota-enxaqueca, então é de se esperar que alguma ressalva veja por aí. Quando eu falo no melhor dos mundos possíveis estou falando do meu mundo, um universo interior que andou bem esculhambado durante muito tempo e que só não caiu (e ele esteve prestes a cair muitas vezes) porque eu tenho pessoas ótimas na minha vida. É curioso, porque durante muito tempo eu oscilei entre a arrogância extrema – não preciso de ninguém, quero que tudo se foda – ou a auto-comiseração extrema – sou um nada, não mereço nada e nem o amor de ninguém. Eu sou uma mulher de extremos, eu sou conhecida por isso. Mas saber que estou lidando melhor com os meus extremos é ótimo. É como dar da cara de seu próprio carrasco, que no caso é você mesmo.
Como diria aquela música do Legião – e eu vou citar Legião no blog não porque eu adoro a banda, mas por pura implicância com a moda de detestar esta banda – “Hoje eu já sei quem sou, tudo que preciso ser. (...) Não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido”. Pois é. Eu não estou mais perdida. É claro que este texto terá de ser revisto daqui a duas semanas quando eu estiver deprimida de novo (a bipolaridade e seus inconvenientes...). A diferença de outros momentos de euforia é que desta vez eu tenho motivos pra estar me sentindo assim e que dizem respeito apenas à forma como eu lido comigo mesma. E olha que lidar comigo não é fácil, eu mesma tenho muitas dificuldades, não sei como os meus amigos conseguem. Aliás, sei sim. È porque eu posso ser implicante, rabugenta, mal-humorada, resmungona, irritadiça, ciumenta, metida a besta (e mais o que o que você, leitor achar que deve ser adicionado à lista). Mas sou uma pessoa bacana. E eu consigo escrever isso querer ser pedante, mas por neste momento gostar muito de mim mesma. Por isso, algo me diz que essa sensação não é passageira. Veremos no próximo capítulo.
CANTINHO TERRORISTA: O que será da Oficina Irritada sem uma autora irritada?
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Fhoutz
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18h44
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A vida salva pelo rock’n’roll
Eu costumo dizer que o rock’n’roll tem todas as respostas. Pode ser uma coisa preconceituosa porque sou roqueira desde a minha pré-adolescência, mas os roqueiros que estiverem lendo isso aqui hão de concordar comigo: rock é mais que música, é um estilo de vida, é atitude, é uma coisa maior. Como diz uma música do Velvet Underground, eu ainda era muito pequena e morava num lugar em que nada acontecia. Até que um dia eu comecei a dançar ao som de uma música muito, muito boa. Vocês sabem, a minha vida foi salva pelo rock’n’roll.
Eu sei que existem músicas mais refinadas, que há outras coisas boas de se ouvir. Eu mesma gosto muito de artistas como Frank Sinatra e até de um pouco de MPB (tenho um pouco de vergonha de falar isso porque universitário que estuda Sociais e que gosta de MPB é o clichê dos clichês). Mas como eu ia dizendo, eu não encontro – e duvido que com as outras pessoas o façam com outro tipo de música – o tipo de energia visceral presente no rock’n’roll.Não conheço momento maior de catarse coletiva que um show de rock. Rock é paixão, é suor, é vida e talvez por isso ele contenha em si todas as respostas. O problema é saber escolher entre Suicide is Painless e Good Vibrations. Mas a vida também é assim, né?
O rock conforta e chama para a ação.Serve para dançar, pra gritar, pra dores de cotovelo e dores da alma em geral, mas também para celebrar a alegria de viver. Rock é intensidade. É comportamento, estilo de vida. E assim como vinho, fica melhor à medida que o tempo passa (eu sei que tem vinho que vira vinagre se ficar muito velho, mas vocês entenderam).
Hoje eu acordei com uma vontade irresistível de ouvir Nirvana. Eu não sei quantos anos faz que eu não fazia isso. Mas hoje acordei com Drain You na cabeça, a música mais fofa (?) do Nevermind. E eu tinha me esquecido o quanto esse disco é legal. Quantos anos tem ele? Uns 15 ou mais. Pois é, nessas horas é que esta escriba se sente... experiente. Nevermind foi o álbum da minha adolescência e hoje eu entendo por quê. Tem tudo aquilo que mencionei nos parágrafos anteriores. Uma energia visceral que fazia-me gritar e querer viver. Desesperadamente. Vai ver era isso que o finado Kurt Cobain estava procurando: viver, de forma tão desesperada, que sucumbiu.
É como no poema de Peppe Lanzetta, “Incendeia-me a vida”. Ou como na música do Neil Young, citada na carta suicida de Cobain: é melhor queimar que se apagar aos poucos. O rock’n’roll é incendiário, impulsivo. Pulsão de vida tão forte que faz com que ela se aproxime do fim. Como no mito de Ícaro e mais um monte de coisas que eu poderia ficar aqui citando. Pra mim, é flertando com a morte, olhando para ela todos os dias que se encontra mais vontade de viver. E não há nada como o rock’n’roll para ilustrar isso.
CANTINHO TERRORISTA: Tenho uma amiga que manja muito de música clássica e que diz que Chopin era o roqueiro daquela época. Eu acredito.
:: Postado por
Fhoutz
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