
A estranha memória das coisas
Acabo de vender nosso beliche. Nosso, porque desde que estou em SP este beliche tem feito parte da vida da minha família, desta casa cheia de fantasmas e presenças flutuantes. E é muito estranho ver o beliche indo embora, porque durante muito tempo tudo o que eu queria era me livrar dele. Ele stava ocupando um espaço no meu quarto e hoje eu entendi que era o espaço vazio deixado pelos meus irmãos. Deu até vontade de chorar. Durante um ano dividimos o quarto e nas visitas deles o beliche voltava a ser ocupado. E era tão bom, tão engraçado ter aqueles dois ali. De vez em quando a minha mãe vinha para o quarto e eu lembro de muitas coisas com um sorriso triste. Tudo por causa de uma porcaria de móvel velho que eu estava doida pra me livrar. Vai ver que eu não fui assim tão infeliz a vida toda quanto a minha memória insiste em me convencer. Acho que não.
CANTINHO TERRORISTA: Toda criança, grande ou não, que já teve irmãos, merecia ter tido um beliche no quarto.
:: Postado por
Fhoutz
às
14h33
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