O saco da vergonha
Este é um texto sobre o BBB. Se você não assiste a esse tipo de programa porque acha que são inúteis e vazios, não adianta ler. Ou talvez adiante. Porque uma coisa que eu acho muito útil em Big Brother, novela e outros programas bem populares da tevê aberta é que eles trazem à baila assuntos que já estão na boca do povo, do jeito que está na boca do povo. Ou o inconsciente coletivo, se preferir.
Houve muitos comentários a respeito deste Big Brother por causa do triângulo amoroso que se formou com os loiros do programa. Íris, a boa moça. Alemão, o pegador. E Fani, a outra. O triângulo foi massacrado pelos outros participantes e as duas moças saíram. Primeiro a moça boazinha-burra-simpática. Depois, a gostosa-safada. Quem restou foi justamente o macho-pegador, o que não surpreende. A despeito de ser um personagem muito carismático, o macho-pegador costuma sair ileso. Já as mulheres gostosas-safadas, ah, essas vão para a fogueira em praça pública.
Esta edição do BBB inventou um negócio interessante, o BBB Só Para Maiores, que é um programa com os participantes eliminados respondendo à perguntas de uma platéia em estúdio. No final, os telespectadores votam se o eliminado merece o troféu Eu Participei ou se devem ser agraciados com o Saco da Vergonha. Na semana que a Fani – a gostosa – saiu ela foi “premiada” com o tal saco. Ela não era má. Ao contrário, fazia parte do núcleo “bom” do programa. Mas foi o resultado da velha fórmula: mulher gostosa + sexualidade livre = puta.
Ironicamente, o ensaio que a moça fez para o Paparazzo foi o mais acessado da história do site.
Eu gosto da Fani. É uma das personagens mais interessantes da história do BBB. Primeiro porque ela foi muito desprendida ao dizer pra outra moça do triângulo que abriria mão do Alemão porque sabia que ele gostava da outra. O lance dos dois era pele. E todos ficaram amigos, era uma coisa muito civilizada. Só que ela disse coisas em rede nacional que ainda não é permitido a uma mulher dizer em público. Que gostava de sexo, que sentia falta durante o confinamento. Ela mesma dizia que a sociedade era muito hipócrita ao condenar este tipo de expressão de liberdade sexual feminina. O saco da vergonha foi prova disso.
Isso me lembra as novelas do Maneco, o autor de novelas mais machista de todos. Sempre nas novelas dele tem uma virgem se casando na igreja, pura como veio ao mundo. Pode casar com o homem que a irmã ama ou roubar o namorado da mãe, que continua sendo pura. A única coisa que realmente é feia e suja é fazer sexo. Do mesmo modo, as mulheres confortáveis com sua sexualidade são vilãs ou são aquelas mulheres descartáveis, que o macho-pegador passa uma chuva e depois dispensa para se casar com a mocinha.
É como naquela comunidade do Orkut lotada de meninas afirmando que são “pra casar”. Não tem nenhuma comunidade de meninas dizendo “Sou pra ganhar o prêmio Nobel” ou “Sou pra ser mãe solteira e independente”. O casamento continua sendo o atestado de que a mulher “deu certo”, porque alguém quis casar com ela. E por mais que hoje poucas pessoas se mantenham castas para o matrimônio, é preciso reiterar que se é “pra casar”, separar-se das outras, das “fáceis”, daquelas que “não são para casar”.
(Eu me pergunto o que é “ser pra casar”. Será que é a capacidade de tolerância que a vida a dois exige? Será que é a habilidade de engolir sapos, de fazer concessões, de manejar a dupla jornada? Será que é um instinto maternal muito forte? Será que é o gosto por administrar uma casa e dividir as contas e preocupações do lar?)
Depois de tantos anos de luta feminista, a lição do BBB e das novelas do Maneco (que curiosamente é o autor de novelas mais popular do Brasil) é que não importa se você é inteligente, bem sucedida, tem caráter, é boa mãe, boa amiga. Nada disso importa se você não mantiver sua capacidade de arranjar marido. Então, queridas, façam sexo, sim. Mas não contem pra ninguém e nunca digam em público que gostam, porque senão ninguém vai querer casar com você. E mulher que não se casa é chamada de mal-amada. O que é outro Saco da Vergonha social.
CANTINHO TERRORISTA: Eu ia escrever mais coisas detonando o casamento, mas meu noivo não deixou.
:: Postado por
Fhoutz
às
15h48
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