
“Senhores pichadores”
Algumas idéias realmente vão salvar o mundo
De um tempo pra cá notei que elas estão por toda a cidade. São placas muito sábias afixadas nos muros de empresas e de casas, mas em geral, de empresas. Dizem mais ou menos assim: “Senhor pichador, a cada mês que esta fachada permanecer intacta nós faremos uma contribuição para uma criança de uma instituição de caridade. Agradecemos a sua colaboração”. Realmente, algumas pessoas estão mesmo dispostas a salvar o mundo. É como as empresas que investem em programas de responsabilidade social.
Sabem, eu fico comovida com este esforço que prevê duplamente a salvação de crianças abandonadas e dos muros da cidade. O prefeito desta cidade não poderia pensar em nada melhor – e olha que o partido que está no poder tem tido idéias ótimas para o embelezamento da cidade: desde a construção da rampa e dos bancos anti-mendigos até a limpeza humana do centro.
Fico imaginando, porém, os efeitos dessa ajuda condicionada. “Ajudaremos uma criança desde que a fachada esteja limpa”. Imagino sempre uma historinha, em que, um belo dia estão Sr. Pichador e o Sr. Grafiteiro estão dando um rolê e se deparam com um belíssimo muro branco. O Sr. Grafiteiro, um Michelangelo de nossos tempos, visualiza um afresco moderno. O Sr. Pichador, um vândalo de nascença, é mais imediatista e pensa em deixar sua marca estampada. Enquanto discutem sobre o destino daquela tela ao ar livre, ambos percebem a presença da placa. Silêncio.
Sr. Grafiteiro: - Ah, mano, é treze, né? Lá na quebrada tem um abrigo pra molecada, não da pra vacilar com eles.
Sr. Pichador: - Cê ta me tirando, né, truta? Duvido que esse cara aí ajude alguém. Vou pichar mesmo, tá ligado?
O Sr. Grafiteiro argumenta sobre as boas intenções do dono da empresa e da placa. Diz que os abrigos para crianças vivem de ajuda de bons homens de negócios. É a tal da responsabilidade social. Ele mesmo já se beneficiou dela, depois que foi acolhido por aquela ONG que incentiva esse tipo de arte. Porém, o Sr. Pichador continua irascível e pretende se vingar do mundo, a começar por aquele muro branquinho. O Sr. Grafiteiro, que não concordava com tal atitude vai embora e o sr. Pichador deixa sua mensagem no muro, algo a ver com política. Mas o vizinho da frente ligou para a polícia e antes que consiga guardar seus sprays, o Sr. Pichador é surpreendido por uma viatura e volta pra casa algumas horas depois com o rosto todo pintado.
No dia seguinte o Empresário Bonzinho diz que não vai registrar queixa, afinal, o pobre do Sr. Pichador é apenas uma vítima das circunstâncias. Apesar disso, toma sua decisão: não vai ajudar ao orfanato naquele mês. É pra esses malandros aprenderem o que é bom. Sabe como é, a pessoa tenta fazer a sua parte, mas esses pobres não querem ser ajudados.
O dinheiro que o Empresário Bonzinho enviava ao orfanato era o suficiente para comprar uma cesta básica. Mas naquele mês não houve cesta básica. Nem no seguinte, porque o Empresário Bonzinho decidiu que valia mais a pena pagar um vigilante noturno para manter seu muro limpo. A madre superiora diz a Joãozinho que não há mais feijão, porque o seu “padrinho” teve a fachada de sua loja pichada por vândalos e por isso não vai mais mandar aquela ajuda.
O final dessa história ainda não consigo imaginar. Ou Joãozinho cresce e se vinga das fachadas, ou vira um agente da segurança pública que tem especial predileção por vagabundos que sujam as paredes da cidade impedindo empresários legais de ajudar às criancinhas. Você escolhe. As placas e suas condições, no entanto, continuam lá.
:: Postado por
Fhoutz
às
21h29
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