
Todo sobre mi madre
Boa parte do sou, do que quero e do que não quero ser, eu devo à minha mãe. Não porque ela tem sido uma ótima mãe. Ou porque ela é um ser humano fantástico, pessoas raras, que consegue ver a alma dos outros só de olhar para a cara. A admiração que eu sinto pela minha mãe pouco tem a ver com as vezes que ela me pôs no colo quando eu estava chorando (coisa que ela faz até hoje). O que me faz querer ser como ela é que ela é uma das poucas pessoas que eu conheço que tiveram a coragem de mudar a própria história.
Minha mãe recebeu o título de mestre ontem de manhã, depois de ter feito uma apresentação brilhante e de ter recebido só elogios da banca examinadora. Com isso, minha mãe se tornou a primeira mestre da família, algo que era totalmente impensado em 1991, ano em que a história de sua vida, e conseqüentemente da minha vida, começou a mudar. Minha mãe casou-se aos 18 anos e aos 23 já tinha eu e meus dois irmãos. Aparentemente, ela tinha feito o curso de sua vida, ou pelo menos do que se esperava de uma mulher de seu tempo: casar com um rapaz trabalhador, ter filhos e ser uma boa dona de casa. Até que um belo dia ela percebeu que não era isso que ela queria fazer pelo resto da vida.
(Abro um pequeno parêntese para dizer que a vida de esposa e dona de casa não é o horror na terra, inclusive porque há pessoas que são realmente felizes dessa forma. Minha mãe mesma foi feliz durante o tempo em que cuidou de mim e dos meus irmãos e que fazia comidinhas gostosas e mantinha a casa toda em ordem. Só que um dia isso não foi mais suficiente. O problema não é ser dona de casa. O problema é ter nessa escolha a única possibilidade de vida decente para uma mulher).
Minha mãe entrou na faculdade de Pedagogia em 1992. Fez vestibular após 13 anos sem pegar num caderno. Passou. Foram quatro anos fazendo comida de noite para almoçarmos no dia seguinte, tendo de lidar com filhos ainda pequenos e conflitos domésticos inevitáveis causados pela mudança. Mesmo assim ela se formou como uma das melhores da turma, fez concurso, pós-graduação, mestrado. E ela não pára.
Lembro que em sua época de faculdade, minha mãe dizia que ficaria muito feliz no dia que eu me formasse, mas que não sabia se sentiria o mesmo no dia do meu casamento. Anos mais tarde presenciei essas felicidades mais que sinceras. Nunca vou esquecer da felicidade de minha mãe no dia da minha formatura, no dia em que eu entrei no mestrado. Nunca vou esquecer da expressão de quem fez um trabalho bem feito, de quem parece dizer “foi para isso que eu te criei”. Eu acho isso emblemático, porque eu recebi felicitações bem mais empolgadas das pessoas pelo meu noivado. Não que ela não tenha ficado feliz por mim. A alegria dela por essas conquistas tem outro significado. Tem um pouco dela ali. Como ela diz, é algo que ninguém poderá tirar de mim nunca: o saber.
Aos 32 anos minha mãe teve coragem de mudar e foi à luta. Acho que nem ela imaginava no que isso iria dar. Que hoje, 15 anos depois, ela seria a ter mestrado na família. Como se não bastasse, ela ainda é bonita e doce, porque faz uns mimos pro meu pai e pros meus irmãos e me dá coisas com estampas de gatinhos que ela vê na rua. A história da minha mãe me mostra que nunca é tarde para recomeçar, que as escolhas da vida só são definitivas quando nós deixamos que elas sejam e que sempre temos muito mais força do imaginamos ter. É esse tipo de mulher, de ser humano, que eu quero ser.
CANTINHO TERRORISTA: Só as mães são felizes.
:: Postado por
Fhoutz
às
03h16
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