
Dá licença que esse filme me pertence
Eu não costumo ser uma pessoa ciumenta. Se tenho amigos legais quero apresentá-los a outros amigos para que todo mundo fique feliz junto; se ouço uma banda muito boa, repasso a todas as pessoas que acho que gostariam de ouvi-la; se leio um livro bom, compartilho com pessoas que eu o quero comentar. Com os filmes também é assim. Mas vou confessar uma coisa. Há um filme em especial que faz eu me roer de ciúmes. Esse filme chama-se Edukators.
Pra começar as pessoas não sabem nem dizer o nome do filme. Tá certo, ninguém é obrigado a saber alemão. Mas esse título, por acaso, pronuncia-se exatamente como é escrito. Edukators. Mas todo mundo fala "eduqueitors", como se estivesse falando algo inglês. Isso dói nos meus ouvidos. Ainda mais porque eu sou contra essa mania esdrúxula de manter numa língua estrangeira títulos que são perfeitamente traduzíveis. Quando eu assisti a este filme na mostra de cinema de SP, em 2004, ele constava no programa sob o título de "Os Educadores". Muito melhor, não. Por isso eu o chamo assim até hoje. Os Educadores.
Quando eu vi este filme pela primeira vez, na mostra, tive de pegar uma sessão às 10h da manhã. Fui sozinha e ao sair do cinema estava bestificada. Não havia ninguém com quem conversar e aquele me parecia um dos melhores filmes da minha vida, se não fosse o melhor. Não sei se isso acontece com você, caro leitor, mas é algo que me acompanha a vida inteira pensar sobre o que eu estou fazendo neste mundo, de que modo devo viver e qual o sentido de tudo isso. Eu acho que as pessoas normais devem pensar nessas coisas de vez em quando, mas a exisstência e a essência me deixam muito perturbada e esse é um dos motivos pelos quais é muito complicado pra mim me adaptar neste mundo tal qual o conhecemos e o maior sintoma disso é eu viver pedindo demissão/sendo demitida. Imagine como esse filme caiu sobre a minha cabeça. Eu fumava um cigarro atrás do outro, estava eufórica.
Durante uns três meses eu perguntei a várias pessoas se haviam visto a este filme na mostra. Nada, ninguém. Até que um tempo depois ele entrou no circuito comercial. No começo eu achei ótimo porque havia várias pessoas que eu queria que vissem. Levei o meu namorado pra assistir. Ele é um ativista, sabe? O pessoal do nosso coletivo viu o filme, as pessoas gostaram. O problema é que agora está cheio de comunidades no Orkut com pessoas nada a ver que dizem adorar O MEU FILME. Pessoal estilo fotolog-poser-delineador-burras cujos princípios parecem estar baseados erm ter um visual bom e ler/assistir/ouvir (mais assistir e ouvir do que ler) tudo aquilo "que deve ser lido". Ou pelo menos dizer que leram/assistiram/ouviram. Ou gente que é workaholic. Ou pessoas que são fúteis e consumistas. Pessoas que representam tudo aquilo que eu abomino. Pessoas que simplesmente são tudo aquilo de ruim retratado no filme, com a atitude típica do magnata de que "o mundo é assim mesmo", ou "eu não fiz o jogo, só sigo as regras" e toda essa asneira liberal que crescemos engolindo.
Eu sei, este texto é um pouco infantil. Porque aquele filme é uma espécie de educação para quem tá assistindo. Algo que pressiona contra a parede e te diz "Não é culpa sua, se o mundo é como é, é culpa sua se ele continua assim". Não posso dizer que foi o filme que mudou a minha vida porque acho isso muito forte e porque eu sempre fui meio esquisita. Mas esse filme me fez, no mínimo, acordar pra um monte de coisas que estavam adormecidas aqui dentro. Como pensar em que tipo de pessoa quero ser, de que modo eu quero viver. E uma certeza que eu tenho é que o modo que eu quero ser/viver não é esse ideal de classe média ignorante e arrogante. Do tipo que aparece na tevê, na Caras. E é por isso tudo que eu fico arrasada ao ver que tanta gente viu e prosseguiu seu curso, tão descartável quanto o saquinho da pipoca ingerida quando assistimos filmes.
Eu não sei você leitor, mas eu não consigo ficar indiferente. De certa forma, fico até chocada.
CANTINHO TERRORISTA: E se tudo isso não te diz nada, pelo menos faça o favor de dizer Edukators. E-du-cá-tors!
:: Postado por
Fhoutz
às
15h18
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