
O príncipe e a rosa
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
("Tabacaria", Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)
Descobri que havia de fato algo estranho comigo quando na sexta série tive de ler o Pequeno Príncipe para a escola. A professora de Português pediu para que cada grupo lesse o livro e selecionasse algumas partes para comentar. Acho que era um exercício de interpretação de texto. Foi um festival de obviedades. Todo mundo falava da rosa, todo mundo falava de ser eternamente responsável por aquilo que cativa. Um horror. Não deve ser por acaso que ele ficou estigmatizado como livro de cabeceira de miss. As pessoas só enxergam o que está bem na cara delas. Ou pelo menos não fazem o menor esforço para ver além. É impressionante.
Minha apresentação foi sobre os sentimentos expressos no livro. Usei meu vocabulário de menina de 12 anos, mas lembro que o último parágrafo me emocionou muito. E falei também de um planeta muito pequeno, em que havia um homem que estava preso a uma tarefa eterna, de acender e apagar o lampião. Devo ter dito algo como o mundo do trabalho e como as pessoas ficam presas em tarefas sem sentido.
Recentemente andei relendo uns trechos desse livro na tentativa de melhorar meus parcos conhecimentos da língua francesa. Até hoje me parece um tratado sobre a melancolia, sobre o amor e a amizade, sobre esta sensação de estar só no mundo. E aquela rosa ainda me parece detestável, egoísta, um símbolo dos sacrifícios que se fazem em vão. Mas, naquele dia de 1992, a professora disse que eu tinha entendido tudo errado. Ela queria que eu tivesse falado sobre ser responsável por aquilo que se cativa. E daquela rosa idiota.
Pensando nessa pequena desventura da minha pré-adolescência, eu acho que isso explica a vida inteira. As rosas são fúteis e egoístas, mas no fundo é tudo o que importa. A amizade, o amor, a solidão, a saudade, essa vastidão do mundo, toda essa viagem por um espaço infinito em busca de algo que não se sabe bem o que é (e quando se sabe, isso pode mudar), tudo isso é assessório. Não tente por essas coisas no centro do mundo. O mundo em que vivemos é um apagar e acender de lampião e é inútil resistir ou se perguntar por quê. Tudo o que importa é a rosa. Você é que deve ter entendido errado.
CANTINHO TERRORISTA: Reza a lenda que um professor novato de Introdução à Ciência Política uma vez mandou que a turma lesse O Pequeno Príncipe quando na verdade queria que eles lessem O Príncipe, de Maquiavel.
:: Postado por
Fhoutz
às
16h35
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