
A culpa é sempre delas
Vi pelo menos duas grandes revistas com a mesma capa esta semana: a moça que morreu em conseqüência da anorexia na semana passada. Isso sem falar nos jornais, na televisão. Ah, como eu adoro fenômenos mediáticos. A moça morreu na segunda. Vamos fazer uma matéria alertando sobre os perigos dessa doença. Bacana. E aí tome anorexia na mídia. Literalmente, porque acho que era o assunto que estava alimentando as pautas dos grandes meios de comunição. Assim como os tomates e maçãs que alimentavam a finada.
A morte da moça calhou justamente com o momento em que a novela das oito tem uma personagem que é anoréxica/bulímica. É uma menina de 15 anos cuja mãe a obriga a ser bailarina. Um meio de realizar seu sonho através da filha. A mãe é interpretada por uma atriz muito magra, que, dizem as revistas de fofoca, recentemente se recuperou de um desses distúrbios alimentares. A mãe vivia dizendo para a mocinha que bailarinas não poderiam ser gordas. Aí a menina parou de comer e quando come, vomita tudo. Ah, legal, a novela vai alertar aos pais e adolescentes sobre essa doença.
Pois é. O problema é que a gente tende a achar tudo muito legal e engraçadinho e não olha para as coisas como elas são.
A menina da novela desenvolveu a doença porque tem uma mãe louca. A modelo ficou doente porque tinha de seguir os padrões rigorosos de beleza. Resumindo: a culpa é sempre das mulheres, da obsessão feminina pela beleza. Porque, você sabe, as mulheres se odeiam e querem sempre competir e ser melhores umas que as outras. Pelo menos é isso que está nas entrelinhas das novelas, das revistas femininas, na propaganda, em tudo. E pra competição feminina não há limites. É o caso de matar ou morrer, como foi o caso da modelo.
A morte da modelo é emblemática. As pessoas estão olhando pelo prisma errado. A menina não morreu por conta de uma busca desenfreada pela beleza. Ela morreu por questões mercadológicas. Porque existe um mundo que nos diz todos os dias que dinheiro-sucesso-fama-e-glamour devem pautar nossas. Porque há um mundo que diz que as mulheres bonitas não podem ser nada além de mulheres bonitas. Uma sociedade em que a glorificação da mulher aparece nos outdoors e nas capas de revistas. Só que raramente são políticas, cientistas, médicas, advogadas, mães de família (e tantas outras) que estão estampadas lá.
Mais do que isso, a história da modelo deveria servir para pensar que existe uma lógica perversa de mercado, que diz a todo instante que se você não for bom o bastante você está fora. Você precisa se matar para se manter empregado, para ter dinheiro, pra mostrar que chegou lá. Fazer MBA, usar terno, sapato alto, trabalhar doze horas por dia com um sorriso no rosto, fazer mais do que pede sua atribuição, ser pró-ativo. É o mundo em que todos são “colaboradores”, uma palavra muito sutil para dizer que as pessoas devem se deixar explorar e ainda gostar disso. A modelo morreu porque se ela não fosse magra o suficiente, estaria fora. Do mesmo modo que nós vamos adquirir úlcera porque se não “vestirmos a camisa” estaremos fora.
CANTINHO TERRORISTA: O trabalho enlouquece o homem. E a mulher também.
:: Postado por
Fhoutz
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13h04
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Data lastimável
Eu ia deixar passar. Acho que você, leitor, já deve estar cheio de tanta matéria em jornal e revista falando do Dia da Consciência Negra. Mas diante de tantos comentários que eu tenho escutado por aí, não poderia deixar de expressar modesta opinião sobre o assunto. Eu creio até que ela já está expressa anterior, mas enfim, há coisas que precisam ser repetidas.
Em primeiro lugar, quero deixar claro que acho lastimável a idéia de haver um dia dedicado à consciência negra. Assim como acho lamentável haver dias destinados aos índios, às mulheres, aos deficientes físicos, aos idosos, ao gays, aos soropositivos e à qualquer grupo que não configure uma minoria étnica, mas que inegavelmente formam minorias políticas. Dito isto, vamos as coisas em pratos limpos.
O que eu considero lamentável é que esses dias precisem existir. Porque eles são totalmente necessários. Quando vejo nos noticiários o número de pessoas que comparem às marchas do dia das mulheres, às paradas GLBT, de movimentos negros e etc, não posso deixar de me sentir triste. Porque é uma vez por ano que esses grupos têm o “direito” de mostrar que existe, que tem demandas. Porque nos outros 364 dias do ano o mundo é dos homens, brancos e machões. Praticamente o “dia do bandeirante”.
Esta semana escutei várias pessoas dizerem que datas como essas reforçam o preconceito. Eu penso que é justamente o contrário. Essas datas fazem o preconceito aparecer à luz do dia. A parcela dos sem–voz ganha cara e coração uma vez ao ano pra dizer que ainda falta muito para que as diferenças sejam respeitadas. Se não houvessem essas datas, possivelmente a “elite branca” – como bem a definiu um certo político brilhante – nunca se daria conta dessas pessoas.
Eu gosto muito de novela porque elas são um bom referencial da sociedade. Negro em novela é empregado, motorista ou outra coisa servil. Recentemente incluíram nas novelas alguns negros “de classe média”. Uma espécie de cota artística. Nessa que está passando há uma médica negra. Só que esta médica é alguém totalmente inserida no mundo branco: ela é casada com um homem loiro, trabalha num hospital onde só há funcionários brancos e suas vestes de médica me remetem a uma mensagem muito perversa: é negra, mas pe limpinha. Como se o aval – e o avental – branco a legitimasse para aquele mundo.
É por essas e outras que essas datas são necessárias. Se é a única possibilidade que estes grupos têm de dizer: Olhe pra mim! Eu existo!, nem que seja uma vez no ano, eu sou totalmente a favor. Porque eu penso que não há outro jeito de caminhar em direção a um mundo menos preconceituoso. Um mundo onde mulher não seja tratada como ser inferior, onde gay não seja sinônimo de pervertido, onde negro não seja “tudo ladrão”. Não é fácil e pra ser bem honesta, eu acho que estamos muito longe de chegar lá. Se é que um dia chegaremos. Mas é muito melhor ver que há ALGUÉM lutando por ALGUMA COISA do que sentar no sofá fazendo pose de politicamente correto só porque ligou pro Criança Esperança ou porque come o sanduíche do McDia Feliz.
CANTINHO TERRORISTA: Como diriam os Ramones, I believe for a better world for me and you.
:: Postado por
Fhoutz
às
19h58
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