
As cores da música
Este mês, coincidentemente, os autores das duas músicas que eu mais ouço ultimamente se apresentam em São Paulo. Ambos se apresentam, inclusive, no mesmo lugar, embora em eventos e datas diferentes. Um deles é o badalado grupo nova-iorquino, Tv On The Radio. Quer dizer, eu não sei se eles são mesmo badalados, mas o clubinho de críticos que monopoliza a mídia especializada diz que sim. O outro grupo é Black Eyed Peas. Aquele pretenso quarteto multiracial, composto de dois negões-rappers, um híbrido de latino com japonês e uma loira bonitona. As músicas que eu tenho escutado são, respectivamente Wolf Like Me e Pump It.
É engraçado notar isso, porque, eu não sei se você conhece as músicas, caro leitor, mas eu acho impossível ficar imune a qualquer uma delas. Meu namorado disse que a única música boa do TV On The Radio é justamente essa. Essa e uma outra que eles usam umas técnicas vocais muito boas, coisa de que cantou muito tempo em coral no Harlem. É, eu esqueci de mencionar, mas o músicos do TOTR são negros, com a exceção de um deles que eu acho que é latino. Estou mencionando isso porque em todas as colunas que eu li sobre a banda nunca passou incólume o fato deles serem negros. Uma coisa patética, como se toda a etnia estivesse recuperando o rock'n'roll que foi parar nas mãos dos brancos por apropriação indébita.
Não sei quanto a você, leitor, mas pra mim quando a cor dos músicos ganha destaque na coluna musical é porque alguma coisa está errada. Vejamos o caso do Black Eyed Peas. Sabe, o BEP é um lixo. Não vou tentar convencê-lo que é bom só porque eu gosto. Eu gosto dessa coisa que está na moda na MTV, cantora gostosona + rapper malvado em clipes cheios de sol e gente suada. Mas eu já vi várias pessoas dizendo que gosta do Black Eyed Peas porque enxerga no grupo "uma mistura étnica interessante".
Pra mim, mistura étnica musical interessante é juntar um sambista velha guarda, um sueco virtuosi em violoncelo e um percusionista tradicional japonês. Não sei se sairia coisa boa, mas é muito mais interessante que juntar um monte de pessoas que desde sempre esteve imerso no modo de vida americano e achar que eles são mais interessantes do que a média que produz música exatamente como a deles porque a cor da pele de seus integrantes é variada. Além de bobo, eu acho que isso é um preconceito às avessas. Se você precisa de um motivo para gostar de uma banda que não seja a música que ela faz, deve haver algum problema.
Há vários motivos para gostar de uma música. Porque o cantor é bom, porque a melodia é bonita, porque a letra é inteligente, sei lá. Assim como há vários motivos para gostar das pessoas. Porque elas são divertidas, porque são receptivas, porque são companheiras, porque são inteligentes, porque o santo bateu. Mas eu acho tão ruim quanto ser nazista você gostar das coisas por cotas. Gostar de uma banda X porque é formada por negros pra mostrar o quanto valoriza a cultura negra. Ter um amigo gay pra provar o quanto você respeita às diferenças. Um professor meu chamou isso de inclusão perversa. Você aceita todo mundo, mas esta tolerância nada mais do que uma forma de reafirmar seu modo de vida. Eu te aceito desde que você se adapte ao meu mundo. Desde que seja limpinho, delicado, politicamente correto.
Eu gosto dessas bandas porque a música faz eu querer dançar muito. Enlouquecidamente. De certa forma, eu me sinto aliviada por ter chegado a um estágio da minha vida que não preciso mais justificar nem pra mim nem pra ninguém os meus gostos ou as minhas implicâncias. Mas por outro lado fico triste de ver que para muita gente, o outro lado de um mundo cheio de preconceitos, é fingir que estamos vivendo numa propaganda da Benetton.
CANTINHO TERRORISTA: O mundo está cheio de palhaços e eles são de todas as cores.
:: Postado por
Fhoutz
às
15h50
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