
Show me the money!
ou "Como me tornei uma mercenária"
A história da minha vida está cheia de guinadas de 360 graus e outras coisas esquisitas. Vai ver a vida de todo mundo é assim, mas a gente tende a se sentir especial porque não sabe direito o que acontece com os outros. O que acontece agora é que a despeito de ter começado o ano com o firme propósito de me tornar uma intelectual, estou fechando 2006 na qualidade de mercenária. Ultimamente meu lema tem sido o mesmo do filme Jerry Maguire: “Show me the money!”. Ou traduzido para o bom português: “Pagando bem, que mal tem?”. Não que eu me orgulhe disso, mas tem sido necessário.
Um mercenário é uma pessoa paga para lutar em uma guerra que não é sua. É um soldado alugado, cujos escrúpulos não estão relacionados às batalhas. Na guerra do Iraque há muitos “soldados contratados”. Ou seja, mercenários. Por isso quando você lê no jornal que os EUA tiveram 10 baixas, na verdade pode multiplicar o número por não sei quanto. Esses rapazes não entram na estatística oficial mesmo. Assim como todo o trabalho que eu tenho feito nos últimos dias.
Numa certa altura do ano eu tinha chegado à conclusão de que era a pessoa não remunerada que mais trabalhava no mundo. Sabem como é, vida acadêmica é como rapadura. É doce, mas não é mole, não. Mas no fundo acho que eu queria pensar isso porque estava chateada ao ver que completava um anjo que eu não ganhava não havia ganhado nem um tostão com “o suor do meu rosto”. Ou, como seria mais apropriado, com a minha corcunda de computador. E foi aí que eu comecei a me tornar uma mercenária, lutando em batalhas que não são minhas, nas quais eu não acredito. Mas tudo bem, desde que me mostrem a grana.
Primeiro foi um frila de jornalismo. Depois umas digitações, umas revisões. Até que chegaram as aulas particulares. Maravilha. Dar aula me faz muito bem, me faz pensar que estou no caminho certo ao mudar de rumo. O que me entristece é que apareceu outro frila como jornalista. E ele paga muito mais do que as coisas que eu realmente gosto de fazer.
Sabem, algumas vezes eu sinto saudade de ser repórter. Por isso eu preciso lidar com o jornalismo de vez em quando só para me lembrar porque escolhi ficar longe dele. Mas como ele me paga três vezes mais que minha aulas de elaboração de projetos de pesquisa, o jeito é vender o corpinho. Eu não vendo as partes, mas vendo meu texto, minhas mãozinhas que cada dia estão perto da LER, meus olhos que cada dia estão mais míopes. É uma guerra que não é minha, mas como eu preciso de dinheiro acabo pondo minha mente e meus braços a serviço do exército do capital.
Isso me parece um pouco deprimente, agora que acabei de ler. Mas se você parar para pensar, nem tanto. Seria melhor não ter de lutar nesta guerra que para mim não faz sentido. Mas já que sou obrigada a isso, me consola não ter de fingir acreditar no general. Um mercenário não deve ao seu contratante lealdade; ele só precisa mostrar serviço, pelo tempo em que estiver sendo pago.
CANTINHO TERRORISTA: Eu tentei fugir, não queria me alistar. Eu quero lutar, mas não com essa farda!
:: Postado por
Fhoutz
às
10h23
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2004 foi um ano ruim
Não leitor, você não clicou nos arquivos do blog sem querer. Esta é uma reflexão tardia de um ano que provavelmente deve ter sido o pior ano da minha vida. Não vou dizer que o foi, porque como eu li por aí, se você acha que chegou ao fundo do poço, o que te falta é imaginação. O engraçado é que como nem tudo pode ser completamente ruim, foi justamente neste ano que eu conheci meu namorado. Um raio de luz na escuridão. Uma coisa meio yin-yang até.
O que me leva a pensar em 2004 é a análise. De repente eu me dei conta de que todo aquele furor farrista e libertinho era um grande pedido de ajuda. Não sei se você percebeu, leitor, mas em 2004 eu estava morrendo. Sabe, a gente não precisa se cortar todo pra morrer. É muito mais fácil e comum ir se matando um pouquinho de cada vez, a cada dia, embora não seja muito prático. Parafraseando o grande Chaninski, "álcool pra mim é para desaparecer e esquecer, por um breve momento, que a merda toda é passageira.(...) Eu nunca vi, vejo ou verei graça na birita. Somente muita dor pois ela suga o melhor de nós, deixando-nos ridículos".
O que me incomoda é que estava tudo aqui. Se você for um amigo que mora longe, ignore esta mensagem. Ela não era pra você. Eu estava aqui pedindo ajuda no meio da escuridão. Eu estava expondo minhas entranhas, estava abrindo as feridas à luz do dia esperando que alguém me desse a mão. Que entendesse, que me aceitasse. Mas para várias pessoas que liam/lêem este blog, que foram testemunhas das minhas desgraças, tudo fazia parte do grande circo de horrores da moça exótica do norte.
Ela faz isso porque quer aparecer. Ela não quer trabalhar. Ela não se esforça. Ela se expõe e depois não quer ser julgada. Ela fez por merecer.
Ah, vão se foder.
Tem uma música que eu andei escutando bastante ultimamente de uma banda que diz, numa tradução livre: "Querida, olhe pra você. Você está preso numa situação e não consegue sair dela". A música é Stuck in a Moment, do U2. E tem um verso que toda vez que eu escuto me dá vontade de chorar: "I wasn't jumping, for me it was a fall. It's a long way down to nothing at all". (Eu não estava pulando, eu estava caindo. Uma grande jornada pra baixo, rumo ao nada). Eu estava caindo, porra! E você aí achando engraçado esmiuçar a vida da louquinha aqui.
Eu sei que alguns leitores inocentes vão pensar e até me dizer: se eu soubesse que você estava passando por isso teria te ajudado. E tem pessoas que eu tenho certeza que fariam isso, mas que estavam longe. Mas pra quem estava perto, não há desculpas. Eu nunca passei uma imagem de quem não tem problemas. Aliás, a imagem do gênio atormentado e problemático sempre me agradou em demasia e vai ver é por isso que eu saboto. Não era preciso ser muito esperto pra saber que por trás de uma busca desenfreada por satisfação estava um grande desespero. Uma necessida de arranjar algum sentido pra esta merda. Algo que me fizesse parar de atravessar a rua sem olhar pros lados. Você esperava o que? Que eu te dissesse: "Sabe, quando atravesso a rua eu não olho para os lados, pode ser que um carro me bata e vai parecer acidente"? Eu não podia ser mais clara.
O que acontece é que tem gente demais preocupada em viver suas vidinhas conforme a norma, que a única diversão é apontar toda a gente "exótica" que aparece por aí. As pessoas sao tão egoístas que você pode estar sangrando na frente delas que elas vão pensar no que você fez para merecer esta dor e não no quanto você pode estar fodido. Elas sempre acham que quem não está dentro da norma MERECE alguma punição.
CANTINHO TERRORISTA: Nunca conheci quem tivesse levado porrada./ Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (...) Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas/ Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.// Toda a gente que eu conheço e que fala comigo/ Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, /Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... (Fragmentos do "Poema em Linha Reta", de Álvaro de Campos).
:: Postado por
Fhoutz
às
10h35
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